Publicado por: blogbeliving | 29/08/2012

Eva Furnari e seu universo mágico

Em um dos últimos dias da 22ª Bienal Internacional de Livros de São Paulo, o Estadinho se encontrou com a escritora Eva Furnari. Era tarde de autógrafos. E a fila era imensa. Pudera: Eva criou personagens tão mágicos, a começar pela bruxinha na década de 1980, que fizeram gerações sonhar com o mundo do impossível. Mas a espera valeu a pena. Além de Marilu, livro de 2001 reeditado agora pela editora Moderna, ela falou sobre os próximos livros, sobre o colorido do mundo e sobre o mundo digital (suas obras estão sendo passadas para os tablets e já saiu a versão animada de Felpo Filva). Acompanhe a entrevista completa (você pode escolher as perguntas que mais o agradam):

O que mudou nesta nova edição?

Mudou a capa, mas não as ilustrações. O que acaba acontecendo toda vez que se faz uma reformulação, e aconteceu com Marilu, é que eu olho com os olhos mais maduros para aquele livro.  Dez anos depois, a gente percebe muito mais coisa, o texto ficou mais redondo, acrescentei coisas, tirei outras, mas a história é a mesma. E o livro anterior era mais quadrado. A gente teve que fazer algumas alterações de imagem.

Como foi criar Marilu, em 2001?

Eu queria experimentar um desenho diferente, são todos recortados com tesoura, queria essas texturas. Houve também uma primeira versão da história todinha em versos que, depois, acabei abrindo mão. É que, para fazer poema, a gente acaba, às vezes, sacrificando o significado. Como era para criança pequena, achei melhor deixar o texto e fazer uma coisa mais organizada, de forma que tem só dois personagens, os donos da loja, que falam rimado. É como se fosse uma coisa um pouco mágica, como se eles não fossem de carne e osso.

Por que esse universo mágico sempre aparece nos seus livros?

Não dá para explicar. Eu realmente ando nesse mundo e não me interesso pelas histórias mais realistas. Mas acho que a gente não escolhe isso, a gente descobre que aquele é seu universo. E foi aos poucos, não foi uma coisa racional.

O que colore o seu dia?

Fazer coisas assim, horríveis (ela mostra fotos de caretas no celular). Eu mudei de celular justamente para me divertir um pouco, porque ele tem uma câmera virada para a frente. Uma das coisas que colore o meu dia é exatamente tirar fotos como essa e mandar para meus filhos ou minha irmã com bilhetinhos meio esquisitos. Tem um monte, mas são tão horríveis que não posso mostrar. Adoro fazer caretas. E fazer meu trabalho também colore o meu dia. É um prazer. Claro, tem tem fases que são mais mecânicas, etapas mais trabalhosas, mas a parte mais agradável é criar histórias mesmo

E o que tira sua cor?

A burocracia. Mas tem que fazer, eu sou CDF.

O mundo hoje está mais colorido ou preto em branco?

Mais colorido. A moda é mais bonita, tem mais liberdade,  milhões de revistas, fotos, uma oferta de tudo. Mas as pessoas estão um pouco atordoadas, porque o ritmo da cabeça é diferente do ritmo do corpo. A mente acelera, inclusive com jogos de videogame, televisão, internet, e o corpo precisa de rotina: dormir, comer. E, nesse desequilíbrio, a gente, às vezes, entra em estado de angústia, ansiedade, porque não respira, porque colocamos o dever sempre antes do prazer, porque temos um monte de obrigações e tudo é urgente. O corpo não acompanha. Isso faz as coisas coloridas ficarem meio cinzas.

Você costuma inventar palavras, como os xingamentos em Marilu. Tem alguma dica para fazer isso?

Não sei, é uma mania minha ficar inventando coisas, me diverte, não sei explicar de onde vem. As crianças podem ser estimuladas, elas se acostumam a criar. O criar é uma coisa que vem lá de dentro, é esquisita em geral. Quando as primeiras ideias vêm, elas vêm muito sem pé nem cabeça. Mas você precisa botar fé nelas. Porque existe uma fase na criação que é como passar a arrebentação das ondas para entrar no mar. Essa fase é um pouco desagradável: o que você vai fazer? Será que aquilo vai dar em alguma coisa? Nós vivemos numa sociedade muito crítica e a crítica é meio inimiga da criação. Se você condena a ideia antes de ela conseguir se formar, você embota (enfraquece) sua criação. Você precisa ser como uma mãe generosa que aceita tudo o que vier. Agora, você também não pode perder sua capacidade crítica de julgamento.

Como é sua rotina?

Eu sou uma germânica! (risos) Acordo seis horas da manhã, faço caminhada, ioga.

Todos os dias você se envolve com criação?

Tem épocas que não dá. Mas eu sou disciplinada. Acordo às 6 horas, às 8 h ou 8h30h, já estou trabalhando. Tenho horário para almoçar, para dormir, tenho horário para tudo. Sou daquelas que colocam o dever antes do prazer, mas estou tentando encaixar umas diversões no meio (risos). Nesse tipo de trabalho, se não tiver uma dedicação, você não faz. Você escreve um livro duas, três vezes… Por exemplo, no último ano não assisti mais tevê à noite. Vou ler. Você fica quatro horas na frente da tevê tranquilamente, tudo é lindo, mas tive que escolher.

Está trabalhando em algum livro?

Tenho dois livros novos, estou bem entusiasmada. Um se chama Amarilis: é um texto que vai ser ilustrado por outra pessoa pela primeira vez, o argentino José Sanabria. Não é de humor. É curto, mas é um texto mais emotivo. São dois irmãos, um é cego. Já escrevi faz uns cinco ou seis anos. E o outro livro vai se chamar Listas Fabulosas, é um conjunto de bobagens (risos). É um livro curto sobre um cara que tinha mania de fazer listas. Ele queria fundar um clube de listas, arrumou a garagem e se deu conta de que não conhecia mais ninguém. Ele pôs um anúncio no jornal e apareceram 14 pessoas. As listas são péssimas, só tem bobagens. A primeira, por exemplo, é de coisas que não se deve fazer: lavar roupa com suco de uva, escovar os dentes com doce de leite… É uma bobagem do começo ao fim. (risos)

Do que criança gosta?

Acho que Deus fez um sistema na cabeça da gente para que os bebês aprendessem como se defender, sobreviver. Ele instalou o sistema do prazer. Um gatinho pequeno brinca, um filhote brinca, ele tem prazer em brincar, mas o intuito é a sobrevivência. É natural que a criança tenha prazer em brincar e ela vai aprender ao brincar. Tanto que a educação vem tentando lidar com uma linha mais lúdica do que castigar… Esse é o grande aprendizado. Acho que a literatura tem que passar pelo prazer. Mas não é só o prazer do engraçado, tem o prazer estético, o poético, lírico…

Você começou a fazer livros nos anos 1980. As crianças mudaram muito de lá para cá?

As crianças são mais agitadas hoje, são muito estimuladas, muito pilhadas. Mas acho que os professores conseguem acalmá-los.

Você está se envolvendo com livro digital?

A editora está passando dois livros para a outra mídia (Felpo Filva, na imagem acima, já está pronto). Mas meu envolvimento é bem pequeno. As animações são minhas, mas não penso nisso, não. Mal dou vazão à quantidade de ideias que tenho…

Que tipo de livros infantis você não leria?

O que acho condenável são livros muito utilitários. Hoje em dia, o governo compra literatura infantil e, para isso, dividiu o setor em tipos de livros. E tem muita editora escrevendo com o intuito de vender, ganhar dinheiro. Acho até que existem livros utilitários muito bons, não sou contra livro que fale sobre assuntos específicos, desde gravidez, até, sei lá, problemas. O que sou contra são esses livros escritos de forma mecânica, estereotipada, histórias mal contadas, de conselhos sem ser verdadeiro. Aliás, isso acaba não interessando as crianças. Eles fazem um desserviço à literatura, a criança pega um livro desse e fala: ‘como é chato’

Que livros você guarda da sua infância?

Tem um livro do Andersen, uma edição de luxo que tinha na minha casa, com ilustrações belíssimas, que eu ficava muito impressionada. Ele marcou meu imaginário, meu gosto. Gostava muito da história A Filha do Rei do Pântano. Até hoje não deixo meus filhos mexerem nele! (risos)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: